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15/09/2025

Emoção e agradecimentos ao trabalho salesiano marcam solenidade de outorga do título de Dr. Honoris Causa

Fonte: Silvia Tada

 

Dois importantes momentos foram lembrados pelos quatro novos Doutores Honoris Causa pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), na noite da última sexta-feira (12): os 150 anos da primeira expedição salesiana para a América do Sul e os 60 anos do curso de Direito da Católica. A solenidade aconteceu no auditório do bloco A do campus Tamandaré e reuniu a comunidade interna e externa para uma noite repleta de emoção, agradecimento e reconhecimento pelo trabalho dos homenageados.

Foram condecorados com o título de Dr. Honoris Causa o chanceler UCDB e presidente da Missão Salesiana de Mato Grosso, Pe. Ricardo Carlos, o ministro da carreira diplomática do Ministério das Relações Exteriores João Carlos Parkinson de Castro, a advogada e professora Carmem Bergottini e o advogado e secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas, Luiz Eloy Terena. A outorga aconteceu diante do Conselho Universitário (Consu), colaboradores docentes e administrativos, familiares e amigos dos homenageados.

A cerimônia foi presidida pelo vice-inspetor e vice-chanceler da UCDB, Pe. Ademir Lima de Oliveira, acompanhado do Reitor da UCDB, Pe. José Marinoni, e dos pró-reitores Pe. Rafael Lopes (Pastoral e Assuntos Comunitários), Taner Bitencourt (Administração), Cleber Fagundes (Gradução e Extensão) e Cristiano Carvalho (Pesquisa e Pós-graduação).

“Com espírito de alegria e de gratidão que me sinto honrado em dirigir algumas palavras inspiradas pelo nosso Pai São João Bosco, que dizia: Entre vós, sinto-me bem. O reconhecimento e a entrega de um título de Dr. Honoris Causa, é um momento de especial relevância que não apenas reconhece o mérito de um percurso acadêmico, profissional ou social, mas também celebra a íntima ligação entre a história de vida do homenageado e sua significatividade num alcance muito mais amplo e social. A beleza de receber o título está exatamente em que o reconhecimento não vem tão somente da pessoa, mas é algo público, que passa um testemunho de vida pela entrega, pela dedicação, enfim, é uma forma expressiva de dizer aqui temos um reconhecimento. Esta outorga está intimamente ligada com a história da nossa Inspetoria Salesiana e a trajetória da educação superior em toda a região onde os salesianos atuam. Em 2024, foram 130 anos da Missão Salesiana, destacando desde os primórdios de 1894 quando chegaram em Cuiabá; em 2025, também estamos celebrando os 150 anos da primeira expedição missionária enviada por Dom Bosco ao continente americano. Dois marcos que se entrelaçam e se refletem na educação, na evangelização e na presença salesiana em nossas terras”, afirmou Pe. Ademir.

Homenageados

Cada um dos novos Doutores Honoris Causa teve a oportunidade de discursar durante a cerimônia. Pe. Ricardo relembrou a grandeza do trabalho dos salesianos e se emocionou ao falar de sua família. “Sem grandes fadigas, não se pode chegar a grandes conquistas. Permito-me expressar minha palavra de alento aos meus familiares aqui presentes; agradeço-lhes de coração pelo apoio e carinho que constantemente me reservam ao longo da minha caminhada. Reconheço que Deus foi imensamente generoso ao conceder-me uma família que me acompanha e fortalece a minha vocação. Desta oportunidade, partilho com os senhores que os integrantes da Sociedade de São Francisco de Sales, há 165 anos, têm sido chamados a evangelizar e educar a juventude, oferecendo formação integral que preparem os jovens para atuar com dignidade na sociedade e na igreja. Atualmente estamos presentes em 137 países. O Brasil salesiano está organizado territorialmente em seis inspetorias, entre as quais destaco a nossa, Missão Salesiana de Mato Grosso. Presente em MS, MT e oeste de SP, atende mais de três mil destinatários diretos nas nossas obras sociais, além de um significativo número de crianças, adolescentes e jovens que frequentam os oratórios e centros juvenis. Atuamos também nas missões indígenas com a etnia Boe Bororo, em um território que abrange cerca de 365 aldeias, com aproximadamente 24 mil indígenas. Na área da educação básica, administramos sete colégios e uma escola. No ensino superior, conduzimos a UCDB, o Centro Universitário de Lins e Araçatuba e a Faculdade Santa Teresa. Trabalhar com amor é orar com as mãos. Nossas celebrações dominicais reúnem, em média, 15 mil participantes. Dirijo essa condecoração à família salesiana, que com profunda alegria e entusiasmo anima nossas comunidades locais, alicerçada na razão, religião e bondade”.

O ministro João Carlos Parkinson é um dos maiores apoiadores e articuladores para a concretização da Rota da Integração Latino-americana, a Bioceânica. A posição estratégica de Mato Grosso do Sul nesse grande corredor de escoamento da produção via Oceano Pacífico tem alavancado o desenvolvimento do Estado, com perspectivas de crescimento ainda maiores a partir da conclusão da via, em 2026. Ele destacou o papel da UCDB, parceira há dez anos na produção de pesquisas e estudos fronteiriços. “É para mim uma grande honra e enorme satisfação poder voltar ao UCDB, desta feita para receber o título de Dr. Honoris Causa. Não poderia deixar de aproveitar esse momento tão singular na minha vida para refletir um pouco sobre o desenvolvimento mais recente do Mato Grosso do Sul, tendo, obviamente, como pano de fundo, o corredor rodoviário bioceânico, obras que vocês todos conhecem. O fio condutor para essa reflexão é o papel da academia e a experiência que tive não só em criar, mas também em apoiar a construção e desenvolvimento da rede universitária [UniRila] da qual a UCDB faz parte. O Mato Grosso do Sul que eu conheci há 10 anos não é mais o mesmo. Nesse período, a economia estadual cresceu uma taxa média anual de 2% a 3%, muito acima da média nacional. E também se modernizou, graças a fortes investimentos no setor de infraestrutura, energia renovada e indústria florestal. Em 15 anos, o PIB industrial do Estado é um salto impressionante de cerca de 500%. As universidades, institutos federais, centros de pesquisa de Mato Grosso Sul têm despontado como espaços muito dinâmicos e criativos, que dialogam com as grandes tendências globais e envidam esforços para responder aos grandes desafios que nós enfrentamos no atual. Programas de extensão universitária têm levado estudantes do Estado a conhecer, sobretudo a entender, as dificuldades das comunidades rurais indígenas. As universidades, notadamente a UCDB, têm também explorado sua vocação natural e estudado as nossas fronteiras, o Paraguai e a Bolívia, analisado as questões migratórias e empreendido ações concretas em resposta às demandas e interesse das comunidades rurais”.

A professora Carmem Bergottini representou o curso de Direito da UCDB entre os homenageados. Formada pela segunda turma da Faculdade de Direito (Fadir) — uma das faculdades que deram origem à Fucmt e, posteriormente, à UCDB — a advogada exerceu a docência por quase duas década e se emocionou ao agradecer pela condecoração. “Este é um momento de reflexão, de agradecimento, um momento de se responder a uma pergunta que eu faço desde o momento em que o Padre Marinoni me informou que eu seria agraciada com esta comenda. Eu tive que fazer uma retrospectiva da minha vida para poder chegar a uma conclusão. Por que sou eu merecedora desta comenda? A razão está na existência da Missão Salesiana. Não fosse a Missão Salesiana, eu aqui não estaria, pois ao criar a Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso [Fucmt] e, dentro dela, a Fadir, permitiu-me descobrir o Direito. Foi onde eu aprendi a gostar cada vez mais do conhecimento, fortaleceu dentro de mim princípios que eu já tinha uma vez que eu fui criada sempre dentro de instituições religiosas católicas, desde a mais tenra idade. Com isso, reforçou a minha vontade de saber, de estudar, de ser justa, responsável e levar sempre com seriedade a minha missão. Esse é o motivo pelo qual eu uso hoje desta tribuna e faço parte deste grupo que aqui se encontra. Três anos depois que me formei, eu já estava dentro da Fadir lecionando — inicialmente Direito Internacional Público e Privado e, posteriormente, Direito Comercial, hoje Direito das Empresas. A Missão Salesiana não só leva o conhecimento, mas faz a sua parte humanística, a sua parte social. O maior privilégio que eu tive, muito mais importante do que estar numa sala de aula, foi trabalhar no Nuprajur [Núcleo de Prática Jurídica]. Ali pude atender as pessoas carentes na área jurídica. Sem exagero, eu creio que tive de 80 a 100 processos, podendo ajudar pessoas carentes que tanto necessitavam”. A ex-docente ainda agradeceu aos colegas professores pela oportunidade de representa-los na cerimônia que inicia as comemorações dos 60 anos do curso de Direito.

Emocionando aos presentes, o advogado Luiz Eloy Terena foi o quarto homenageado a discursar. Ele relembrou o sonho realizado em estudar na UCDB após conseguir uma bolsa integral pelo Programa Universidade para Todos (ProUni), os professores que o acompanharam durante sua trajetória acadêmica e o esforço para estudar e concluir dois cursos de doutorado e pós-doutorado. “Cumprimento de modo especial, minha mãe, dona Zenir, que se faz presente e em seu nome agradece a presença da minha família, meus amigos e aos colegas de trabalho. Hoje eu estou muito emocionado, pois este momento representa a celebração de toda uma trajetória de lutas, persistências, dedicação e afeto. Ainda me lembro como se fosse hoje, do dia que pisei pela primeira vez na UCDB. Era a realização de um sonho. Aqui pude desfrutar dos melhores ensinamentos e estrutura universitária que um sul-mato-grossense pode ter. Conheci o professor Antonio Brand, nosso mentor. Trabalhei com as professoras Adir Casaro Nascimento e a professora Eva Ferreira, do Neppi. Fui orientado por três ciclos consecutivos do Pibic pela professora Marta Regina Brostolin e pude ter aulas com grandes mestres do direito: Antonio Dorsa, Arlinda Cantero, Ben-Hur, Lamartine Ribeiro, Juliana Medina. No Nuprajur, fui supervisionado pela professora Carmem Bergottini. O destino foi favorável. A cada novo plano, sempre tive pessoas prontas a ajudar. A jornada nunca foi solitária. Não que tenha sido fácil, mas é sempre bom ter alguém com quem dividir o fardo. Aqui nesta mesma instituição tornei-me mestre em Desenvolvimento Local. Logo em seguida, ingressei no doutorado em antropologia social do Museu Nacional, da UFRJ. Alguns diziam: 'Tem doutorado, mas não em Direito'. Foi aí que resolvi fazer o segundo doutorado, desta vez, em Direito e Sociologia na Universidade Federal Fluminense [UFF]. A ida para o Rio de Janeiro não foi por acaso. Foi uma saída estratégica, dado aos intensos conflitos fundiários no Estado, que acabaram colocando em risco também a minha atuação. De lá voltei com dois diplomas de doutorado. Pesquisei no Canadá e na França, para o estágio de pós-doutoramento na L'École des hautes études en sciences sociales. No âmbito profissional, tenho muito orgulho de ter sido o advogado da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil [Apib] e nesta condição ser o autor de alguns litígios estruturais no Supremo Tribunal Federal, na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em Washington, e no Tribunal Penal Internacional, em Haia. No âmbito do direito brasileiro, ser o advogado que inaugurou a legitimidade dos povos indígenas para atuar na jurisdição constitucional e na defesa do direito originário dos povos indígenas, em detrimento do marco temporal, são realizações que me orgulha, e é resultado de um investimento coletivo e de muito esforço e tempo de dedicação. Assim, fui doutor aos 30 anos, ocupei a tribuna do Supremo aos 32, aos 34 fui convidado pela ministra Sonia Guajajara e nomeado pelo presidente Lula para ser o secretário-executivo do inédito ministério dos povos indígenas. Hoje, aos 37 anos, estou recebendo esse título de Doutor Honoris Causa da UCDB. Isso tudo só me faz reconhecer que cada esforço e dedicação valeu a pena”.

Para encerrar a noite especial, o grupo de dança terena Haná’iti Kipâe, formado por guerreiros da terra indígena Taunay Ipegue, apresentou-se no saguão do bloco Administrativo. O nome do grupo significa Grande Ema, em língua terena, e traduz o propósito de preservar, fortalecer e difundir a cultura indígena por meio da dança.

 

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