20/03/2011
Artigo: Subir bem alto para não ser derrotados
Fonte: Pe. Pedro Pereira Borges
Há uma imagem, entre as tantas que foram mostradas nestes dias do Japão, que me veio à mente, depois de ter lido o evangelho de hoje, de Mateus 17,1-9.
Um vídeo de um cinegrafista amador, feito enquanto a massa de água do tsunami invade inesperadamente as cidades e vilas do litoral japonês, mostra um grupo de pessoas sobre o teto de um edifício que, com dificuldade, busca subir até o ponto mais alto, para fugir das águas que aumentam mais e mais, arrastando tudo o que encontra pela frente. No vídeo, é possível ver claramente pessoas que vão ajudando umas às outras. Alguns, que estão em baixo, empurram os outros para cima, especialmente os mais velhos e as crianças, e, depois, de lá de cima, as pessoas que, tendo alcançado o topo do edifício, ajudam os outros a subir.
As imagens são dramáticas e, mesmo sendo vistas na tranquilidade do nosso sofá, enquanto assistimos à televisão, não deixam de provocar um arrepio diante do pavor daquelas pessoas.
O evangelho deste segundo domingo da Quaresma nos conta que Jesus leva três dos seus discípulos para o alto de um monte e faz com que eles presenciem algo extraordinário, que eles mesmos, em um primeiro momento, têm dificuldade de entender. Como diz o evangelho, os três esperarão a morte e a ressurreição de Jesus para contar o que aconteceu o que eles viram, porque somente à luz de toda a história é que se poderá compreender o que realmente aconteceu naquela tarde sobre aquele monte.
Para entender bem a razão dessa experiência da transfiguração, é preciso ver em que contexto ela acontece. Jesus foi aos poucos deixando claro que a sua vida e a sua missão não seriam algo fácil. Os discípulos também foram percebendo que haviam embarcado numa viagem de decepção e de dor.
Jesus fala de cruz, e o contraste entre o seu projeto e o dos discípulos aumenta. A angústia e o medo aumentam e parece que eles começam a perder a confiança nesse mestre e amigo. Nem tudo se apresenta tão seguro e eles sentem que estão num beco sem saída.
É nesse momento que Jesus leva os discípulos a ver como é o caminho da salvação. Mostra-lhes que a violência e a rejeição não terão a última palavra. O Mestre mostra aos seus amigos discípulos que não estão destinados ao nada e ao fracasso e que Ele faz parte de uma história de salvação que tem raízes antigas, em Moisés e nos profetas, como Elias. E a voz de Deus Pai, que se faz ouvir, lá do céu, anuncia, de maneira ainda mais clara, quem é esse Jesus, e que, confiando n’Ele e na sua palavra, nada está perdido.
A esses três discípulos, Jesus concedeu o dom de ver o ponto mais alto do seu caminho de salvação, e, portanto, são chamados a confiar. Pedro, Tiago e João são, por um instante, levados ao alto para fazer a experiência da salvação que nasce da fé. Sua tarefa é a de não se esquecer disso e a de fazer com que também os outros nove discípulos e todos os que vierem depois não se sintam envolvidos pelas águas do medo e da violência.
Quantas vezes a vida parece de fato um tsunami de violência, dores e fracassos. Nós passamos por cada bocado que parece tirar o chão de debaixo dos nossos pés, deixando a gente sem segurança.
Fatos terríveis como estes que acontecem no mundo, como, por exemplo, as catástrofes do Japão e da guerra civil na Líbia, é que nos fazem sentir o peso de ser humanos e fracos, enquanto que Deus parece estar tão distante.
Eis que a experiência desses três discípulos é mais uma vez colocada como luz no fim do túnel: nós não nascemos para sofrer, a nossa vida não está destinada ao fracasso. Aliás, é justamente diante das águas terríveis da vida que podemos subir também nós o monte da transfiguração, e encontrar, na confiança em Jesus e na sua Palavra, uma salvação à altura da nossa fé.
Enquanto estamos subindo, não podemos nem devemos pensar somente em nós mesmos. Se os discípulos fizeram a experiência de fé no alto do monte Tabor, e nos deixaram essa herança de fé, também nós somos chamados a levar outras pessoas a subir a montanha da fé, para que sejam envolvidas pela luz de Jesus. A fé é um dom de Deus, mas é também responsabilidade nossa transmiti-la principalmente a quem mais precisa dela.
Fonte: Pe. Pedro Pereira Borges -Pró-Reitor dePastoral da UCDB
Foto: http://ptl2010.files.wordpress.com/2011/01/transfiguration.jpg