06/03/2011
Artigo: A chave para entrar no Reino dos Céus
Fonte: Pe. Pedro Pereira Borges
Entre os tantos livros que enchem as prateleiras das bibliotecas, talvez nenhum deles seja tão complexo como a Bíblia. Ela, por si só, já é uma biblioteca com 73 livros de vários gêneros, escritos por mãos muito diferentes no arco de centenas de anos para um mundo sempre em transformação. A biblioteca da Bíblia fala sobre todas as contradições do mundo, aparentes ou não, de tal forma que algumas pessoas, não a reconhecendo como Palavra de Deus, tomaram como objetivo de suas vidas destruir a sua credibilidade. Alguns até são honestos a ponto de reconhecem a Bíblia como uma “novela de cunho formativo”, que acompanha e educa o crescimento dos personagens principais – neste caso, o povo –, orientando-o passo a passo para que possa superar os próprios limites até conquistar a maturidade de um adulto, que busca resolver conflitos e diferenças aprofundando as próprias motivações.
Mas nós, cristãos, acreditamos que a Bíblia é a Palavra de Deus e vai muito além de ser uma novela que fala do passado para nos educar para o futuro.
Um exemplo das pretensas contradições da Bíblia é oferecido nas leituras que serão lidas nas Igrejas Católicas neste IX Domingo do Tempo Comum. No evangelho (Mateus 7,21-27), Jesus chama a nossa atenção: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus”. E Se explica com uma comparação: “quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática, é como um homem prudente, que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha. Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática, é como um homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e a casa caiu, e sua ruína foi completa!”.
Se formos consultar os jornais dos últimos dois anos, nós vamos ver que fomos testemunhas de tantas situações parecidas. Há dois anos, houve a grande tragédia das cidades catarinenses que foram tragadas pelas águas. Os repórteres visitaram os lugares que foram mais destruídos e fizeram comparações entre o antes e o depois. No caso da região serrana do Rio de Janeiro, foram feitos quadros comparativos usando as imagens do Google Earth para mostrar o rastro de destruição que se deu nas cidades de Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis.
Mas Jesus não está falando aqui da falta de planejamento dos nossos governos que não têm um plano de prevenção para as áreas de risco ou que dão a autorização para as pessoas habitarem nas margens dos rios, nas palafitas ou mesmo nas encostas dos morros, tornando-se, assim, vítimas potenciais dos fenômenos naturais, nem sempre fáceis de serem previstos.
Jesus, no evangelho de hoje, está se referindo à casa que é a “vida” do homem, vida que vivemos agora como preparação para o futuro, e a “rocha” sobre a qual devendo edificá-la é o próprio Jesus, representado na terra pelo por aquele que Ele escolheu e de quem significativamente mudou o nome: “Bem-Aventurado és tu, Simão, Filho de Jonas. Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e os poderes dos infernos não prevalecerão contra ela” (Mt 16,17-17). Pedro, na língua original é Céfas, que significa rocha, pedra, sobre a qual é construída aquela Igreja que nenhuma força vinda do homem ou do mundo poderá destruir.
A própria casa segura, voltando ao evangelho de hoje, não é, portanto, aquela de quem proclama a fé somente por palavras, mas aquela de quem age com a prática da vontade de Deus, dentro da Igreja. Não nos deixemos ser enganados pela interpretação que se faz das palavras da segunda leitura (Rm 3,21-28), que dizem que os homens são todos pecadores e que, mesmo tendo se separado de Deus, foram justificados por Jesus em virtude da redenção, pois o sacrifício de Cristo lava os pecados de quem acredita n’Ele. Em síntese: “O homem é justificado pela fé, independentemente das obras”.
Alguém, no passado, interpretou essas palavras da seguinte maneira: não importa como nós agimos ou fazemos as coisas. Nós podemos até fazer o mal. Basta acreditar em Jesus, confessar que Ele é Deus e fazer com que isso se torne a verdade que sai do nosso coração, que já estamos salvos. Isso é fruto de uma cabeça que só sabe ler a Bíblia nos versículos que lhe interessam e não vê os textos dentro do seu contexto. É por isso que o cristianismo está tão dividido.
Quem age assim está distorcendo a verdade cristã. Daí por diante é fácil distorcer o resto. Por exemplo, no plano das relações humanas, podemos afirmar que não precisamos da religião. No entanto, sem uma verdadeira religião não existe moral ou ética. Com a religião é possível viver de maneira coerente. Na verdade, ninguém gosta de uma pessoa que diz uma coisa e faz outra. É por isso que Jesus está nos dizendo, hoje: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus”. Daí por diante, a consequência é clara: não adianta dizer que fazemos milagres, que falamos em nome de Jesus, porque Ele mesmo dirá que não nos conhece.
Se que diz uma coisa e faz outra aos olhos do mundo não é digno de estima e consideração, também Deus não terá muito que fazer por ele. São Tiago mostra como é possível que nós sejamos coerentes, como cristãos: “para que serve, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, mas não tem obras?”. E, com um toque de ironia, acrescenta uma objeção àqueles que proclamam a fé somente com as palavras: “Tu tens a fé e eu tenho as obras. Mostra-me a tua fé sem as obras, e eu, com as minhas obras, te mostrarei a minha fé”.
Mas o que Jesus quer nos dizer hoje com esse jogo de palavras? Vamos encontrar a resposta no final do evangelho de Mateus, quando Jesus convida para entrar no Reino que o Pai nos preparou antes de todos os tempos aqueles que deram pão a quem tem fome, água a quem tem sede, vestiram os nus, visitaram os doentes e os presos (Mt 25,34-40). Portanto, a vida do homem deve ser construída com um olhar nos céus e outro no irmão. No fim, o que conta é o amor que fomos capazes de irradiar neste mundo.
Esta é a chave para entrarmos nos Reino dos céus!